Por que torcedores viajam? A psicologia do jogo fora
As contas não fecham
Sejamos sinceros sobre quanto custa, de verdade, um jogo fora de casa. E não é só o ingresso: é o trem, a comida, a cerveja, a folga no trabalho, a energia gasta para se virar numa cidade desconhecida. Um jogo fora da Premier League, na Inglaterra, pode sair por uns £150. Uma viagem pela Europa (em inglês) pode passar de £400. Uma temporada de apoio fiel fora de casa pode custar vários milhares de libras e engolir a maior parte dos seus fins de semana de agosto a maio.
E o que você recebe em troca? Uma cadeira de plástico no pior canto do estádio dos outros. Visão limitada. Às vezes, nenhuma cobertura. Uma torta fria, se der sorte. A possibilidade bem real de o seu time perder e de você passar três horas no trem de volta, em silêncio, depois de pagar pelo privilégio de ver isso acontecer ao vivo.
No papel, é irracional. Em termos econômicos, não faz sentido. Você poderia assistir à partida em casa, com conforto, economizar centenas de libras por mês e ver mais lances pela tela do que jamais verá da fila Z de um setor visitante.
E, mesmo assim, a cada fim de semana, centenas de milhares de pessoas pela Europa fazem exatamente o contrário. Acordam cedo, viajam por horas, gastam dinheiro que provavelmente não deveriam e se espremem num cantinho do estádio onde estão em desvantagem de vinte para um. Fazem isso no calor de agosto e no gelo de janeiro. Fazem isso em jogos de copa no meio da semana contra times de que nunca ouviram falar. Fazem isso quando o time está na lanterna e não vence há doze partidas.
Por quê?
Identidade não é o que você pensa — é o que você faz
A explicação psicológica mais simples é a identidade. Não no sentido vago e moderno da palavra, mas identidade como comportamento. Você não é torcedor porque diz que é. Você é torcedor pelo que faz, e o que você faz define quem você é para si mesmo.
Existe na psicologia um conceito chamado verificação de identidade. A ideia é que as pessoas precisam agir de modo a confirmar a imagem que têm de si. Se você se vê como um torcedor dedicado — não um torcedor de ocasião, não um oportunista que só aparece quando o time vence, não alguém que assiste do sofá —, então precisa fazer coisas que confirmem essa identidade. Comprar ingresso não basta. Ver pela televisão não basta. Você precisa estar lá, fisicamente, no setor visitante, porque é isso que um torcedor de verdade faz.
Não se trata de provar nada a ninguém, embora isso também conte. Trata-se de provar a si mesmo. Cada jogo fora de casa é um pequeno ato de autoafirmação. Você foi. Você estava lá. Fez aquilo que o separa dos milhões que não foram. E essa sensação — a de ter conquistado o seu lugar na história do seu clube — vicia, bem de mansinho.
Os torcedores do Leeds talvez sejam o exemplo mais puro. Entre rebaixamentos, crise financeira, a League One e a volta por cima, o Leeds sempre teve uma das maiores torcidas visitantes do futebol inglês. A cota de ingressos para visitantes esgota em jogos que, por qualquer análise racional, não valeriam a viagem. Mas a racionalidade não é o ponto. O ponto é que ser um torcedor do Leeds que viaja é uma identidade específica — teimosa, comprometida, meio louca — e o ato de ir a confirma.
Fazer parte do bando
Os humanos são animais sociais, e o setor visitante é um dos últimos lugares da vida moderna onde se pode viver um pertencimento tribal genuíno, sem constrangimento nem ironia.
Pense no que realmente acontece ali. Você está cercado de desconhecidos que compartilham com você uma única coisa. Ninguém escolheu ninguém. Ninguém foi apresentado. Não há obrigação de puxar conversa, nada de networking, nenhuma performance social além do básico: fique aqui, cante isto, importe-se com a mesma coisa ao mesmo tempo. As barreiras sociais que tornam a vida cotidiana tão cansativa — a necessidade de se apresentar, de ser interessante, de lidar com relações complicadas — somem por completo. Você pertence porque apareceu.
Isso é raríssimo na vida adulta. A maioria das experiências sociais exige esforço, planejamento e trabalho emocional. O setor visitante não exige quase nada. Você entra e já faz parte. A pessoa ao lado puxa assunto sem precisar de motivo. Vocês cantam juntos sem se sentir ridículos. Se o seu time faz gol, você abraça um desconhecido com alegria verdadeira, e nenhum dos dois acha estranho.
Os psicólogos chamam isso de communitas — um sentimento de comunhão intensa, a sensação de fazer parte de algo maior do que você, que transcende a estrutura social comum. O antropólogo Victor Turner usou o termo, originalmente, para descrever o que os peregrinos sentem ao longo de uma jornada, e há algo genuinamente de peregrinação num jogo fora de casa. Você saiu de casa, viajou, chegou a um destino que só tem sentido por aquilo em que você acredita, e está rodeado de gente que fez o mesmo caminho pelo mesmo motivo.
O ritual mantém você são
Há uma linha da psicologia segundo a qual os humanos precisam de ritual muito mais do que a vida secular moderna oferece. Antes havia cultos religiosos, festas sazonais, encontros comunitários organizados em torno de padrões repetidos. Quase nada disso sobrou, e nada o substituiu de forma convincente. Exceto o futebol.
O futebol oferece um ritual semanal de agosto a maio. Você sabe quando é a partida. Sabe onde é. Conhece os cantos, a caminhada até o estádio, a rotina do intervalo, a conversa depois do jogo. Nos jogos fora de casa, o ritual é ainda mais estruturado: acordar, trem, pub, estádio, jogo, pub, trem, casa. A sequência quase não muda de uma semana para outra. Os detalhes variam — outra cidade, outro estádio, outro resultado —, mas a estrutura é a mesma.
Isso não é tédio. É estabilidade. A repetição do ritual dos jogos fora de casa cria um ritmo que ancora a sua vida como poucas outras atividades. Quando tudo o mais é incerto — trabalho, relacionamentos, saúde, dinheiro —, você sabe que no sábado tem jogo e que você vai. O mundo faz sentido por noventa minutos. Talvez não o sentido certo — o seu zagueiro pode dar um pênalti aos 89 minutos —, mas é um caos estruturado e previsível, e o caos estruturado é infinitamente melhor do que a ansiedade sem forma de um fim de semana sem nada para fazer.
A emoção de ganhar fora de casa
Vencer longe de casa provoca uma reação emocional específica, qualitativamente diferente de qualquer outra vitória. Não é só felicidade. É a sensação de ter tido razão. Vocês eram minoria. Estavam em território hostil. Tudo era desfavorável, em termos práticos — menos torcedores, gramado desconhecido, barulho da arquibancada a favor do mandante, um árbitro que acabou de ouvir vinte mil pessoas gritando com ele. E o seu time ganhou mesmo assim.
A comemoração não é só pelos três pontos. É por ter acertado em ir. É pelo investimento de tempo, dinheiro e desconforto que compensa da forma mais visceral possível.
Há pesquisas sobre o que os psicólogos chamam de justificação do esforço — a ideia de que, quanto mais esforço você dedica a algo, mais valoriza o resultado. Uma vitória fora de casa depois de cinco horas de estrada e de um trem atrasado é emocionalmente mais gratificante do que uma vitória em casa, depois de uma caminhada de dez minutos até o estádio. O sofrimento faz parte da recompensa. Você conquistou isso.
O inverso também vale, e também faz parte do encanto. Perder fora de casa dói, mas a dor é compartilhada. Sair de Old Trafford ou de Anfield depois de uma derrota não é uma experiência solitária. Você está com a sua gente, todos sentindo a mesma coisa, todos digerindo juntos no caminho de volta para a estação. Existe uma solidariedade específica na derrota compartilhada, que cria laços que nenhuma quantidade de vitórias consegue replicar.
Os torcedores do Liverpool em Istambul, em 2005, não apenas viram uma virada. Eles tinham viajado milhares de quilômetros, gastado centenas de libras, visto o time ir para o intervalo perdendo por 3 a 0 e, em seguida, vivido uma reviravolta tão extrema que desafiava a imaginação. O esforço — os voos, o custo, o investimento emocional, o desespero genuíno no intervalo — tornou a alegria da virada incomparavelmente maior do que teria sido na sala de casa. Quem estava lá carrega essa experiência como parte central da própria identidade, e com razão, porque a conquistou indo.
A escassez o torna precioso
As cotas de visitantes são limitadas. Os setores visitantes da Premier League comportam cerca de 3.000 pessoas em estádios com 50.000 lugares ou mais. Essa escassez não é um defeito — é uma característica. Estar no setor visitante significa ser uma entre relativamente poucas pessoas que fizeram aquela viagem específica, e essa exclusividade agrega valor.
Os psicólogos sabem há tempos que a escassez aumenta o valor percebido. Produtos em edição limitada se vendem por mais. Clubes exclusivos são mais desejados. O setor visitante funciona do mesmo jeito. Você não é um dos 40.000 torcedores da casa que chegaram ao estádio depois de quinze minutos de carro. Você é um dos 2.000 que tiraram o dia de folga, pegaram um trem às 6h e chegaram a uma cidade que nunca tinham visitado para ver noventa minutos de futebol. É um clube com um critério de entrada muito específico: você se deu ao trabalho.
É por isso que os torcedores visitantes quase sempre fazem mais barulho que os da casa. Não é só acústica, nem o fato de ficar em pé ou sentado. É viés de seleção. Quem está no setor visitante são os torcedores mais comprometidos daquele clube, concentrados num espaço pequeno. Os torcedores ocasionais ficaram em casa. Os moderados vão aos jogos em casa. O setor visitante é a essência destilada da torcida, e essa concentração gera uma intensidade difícil de reproduzir em qualquer outro contexto.
É uma fuga, e tudo bem
Na psicologia do esporte, costuma-se pensar demais na motivação dos torcedores, procurando explicações estruturais profundas para o que é, em certo nível, um impulso muito simples: o desejo de sair da vida normal por um dia e fazer algo que pareça ter significado.
Os jogos fora de casa são uma fuga. Não no sentido pejorativo — não é evitar, negar nem fugir de problemas. É uma fuga no sentido positivo: uma saída temporária da rotina de trabalho, responsabilidades e vida doméstica para um espaço em que as regras são outras, o que está em jogo é artificial e as emoções são intensas, mas, no fim, sem consequências.
O seu time perder não afeta o seu financiamento. O seu time ganhar não cura a sua dor nas costas. Mas, por noventa minutos, mais a viagem, você vive num mundo em que só importam a bola e a rede, e essa simplicidade é um alívio.
O futebol lhe dá licença para se importar com algo por inteiro, sem reservas nem ironia, numa cultura que cada vez mais exige distanciamento. O setor visitante é o único lugar em que o entusiasmo excessivo não é apenas tolerado, mas esperado. Não é coincidência que as melhores atmosferas do futebol europeu costumem estar nos setores visitantes, e não nas arquibancadas da casa. Você pode gritar, cantar, xingar, abraçar desconhecidos, sentir desespero genuíno, viver êxtase genuíno — sem que ninguém ache você estranho. Na verdade, estranho seria ficar sentado em silêncio, assistindo com um interesse distante. Isso, sim, chamaria atenção.
O acúmulo de memórias
Pergunte a qualquer torcedor visitante assíduo quais são as suas melhores lembranças, e ele não vai listar jogos em casa. Vai listar jogos fora. O 4 a 3 em Selhurst Park. A noite congelante em Goodison. A vez em que o ônibus quebrou na M6 e eles assistiram ao segundo tempo no celular de alguém, no estacionamento de um posto de beira de estrada.
Os jogos fora de casa ficam mais na memória porque são mais vívidos. Os psicólogos sabem que intensidade emocional, novidade e experiência compartilhada são os três maiores indicadores da formação de memória de longo prazo. Os jogos fora de casa entregam os três, sempre. O estádio é novo, ou pelo menos diferente. As emoções são amplificadas pelo contexto. E a experiência é dividida com um grupo de pessoas que estavam todas lá, sentindo a mesma coisa, capazes de confirmar a sua lembrança anos depois.
Com o tempo, essas memórias se acumulam em algo parecido com uma história pessoal — não da sua vida, mas da sua vida como torcedor. Uma autobiografia paralela escrita em jogos fora de casa, cada um um capítulo com cenário, elenco e arco emocional próprios. É esse acúmulo que faz os torcedores veteranos de jogos fora tão relutantes em parar. Cada partida que você perde é um capítulo que deixou de escrever.
Registrando a jornada
O impulso de registrar e lembrar os jogos fora de casa é a razão de o Footbeen existir. Cada estádio que você visita, cada jogo fora que você completa, cada novo estádio que você marca passa a fazer parte de um registro visual da sua vida no futebol. O mapa de estádios vai se preenchendo ao longo dos anos. A lista de estádios visitados cresce. Os números contam uma história que a memória sozinha não conta — quantos estádios, quantos países, quantos quilômetros.
Se você nunca foi a um jogo fora de casa, leia o nosso guia para o seu primeiro jogo fora. Se quer levar o hábito adiante e começar a colecionar estádios pela Europa, as nossas rotas de groundhopping europeu (em inglês) reúnem dez roteiros de fim de semana com dois ou mais estádios por viagem. Se você já foi a dezenas e quer definir uma meta, o desafio do 92 Club (em inglês) está esperando.
A psicologia dos jogos fora de casa não é complicada, mesmo que o comportamento pareça irracional visto de fora. Você vai porque isso faz de você quem você é. Você vai porque, lá dentro, você pertence. Você vai porque o ritual sustenta a sua vida. Você vai porque ganhar fora é a melhor sensação do futebol, e perder fora é o tipo de sofrimento mais suportável. Você vai porque é torcedor de futebol, e é isso que torcedores de futebol fazem.
Continue lendo
- Groundhopping nas divisões inferiores: por que a base da pirâmide é a experiência de verdade (em inglês)
- O que acontece quando você começa a registrar todos os jogos a que vai (em inglês)
- Strava para o futebol: por que o groundhopping merece o seu próprio app
- Estádios de futebol que vão mudar até 2030: 20 atualizações de projetos (em inglês)
Comece a sua jornada no futebol
Grátis · iOS e Android · busca de jogos pronta quando você quiser
Digitalize com o telemóvel